O Amor ou a soberba?

Nunca se saberá se maior é no Homem o Amor ou a soberba.
Ligava-os, não um laço, mais um nó: ela desde que nascera fora ensinada a amá-lo, não da forma convencional, mas porque ele era seu pai.
Mas houve um dia que ele partiu.
E ficou o silêncio. Não de um dia, não de uma semana, de mais de dois meses.
Ainda que bem soubesse que o Amor não se escreve com qualquer pena, sua mãe subiu as escadas daquela casa.
Rogou ali que a soberba fosse feita ceder e o Amor sobressaísse: que a menina tivesse o seu pai e que o pai não usasse a sua filha para a guerra que, eles, haviam criado, o divórcio.
Passados dois dias - porque o Amor é urgente - é passajado o rombo da distância entre a menina e seu pai com as letras que daquela casa saíram: o pai tinha que ir buscá-la todos os sábados e ficarem juntos até domingo.



Ser Inteiro

Finalmente chegava um dia perfeito.
Desde que se lembrava de si era no meio dos seus iguais: apenas por serem diferentes, e somente por isso, todos eles tinham crescido longe de quem se sabiam saudosos e numa morada que, afinal, lhes tinham dito ser o seu lar.
Mas naquele dia ele era um ser inteiro.
Subiu as escadas daquela casa, ainda que as suas pernas fossem as rodas da velha cadeira; respondeu que sim ao ouvir o seu nome, pela voz de quem sempre soube ler cada um dos seus acenos, já que a voz decidiu alojar-se no seu coração e, como nunca antes, aos seus ouvidos, que nunca se abriram ao Mundo, chegaram todas as palavras pelo bailado de cada sinal, de todos os sinais.
Com um semblante pleno de orgulho e uma alegria, que no seu caso era de garbo, soube dançar em cada gesto que, em palavras depois ditas, respondiam a todas as interpelações e explicitavam cada uma das muitas interjeições.
Houve um momento em que o seu sorriso foi ainda mais límpido: lendo a dança dos gestos, mais uma coreografia, soube que agora podia voar sozinho. E fez-se um cavado silêncio e uma delonga inesperada.
Mas logo, logo se fez entender: curvado como que ensaiando o seu salto mortal, desapertou os atilhos dos sapatos e tirou um deles, elevou-o e mostrou como a um dos seus tinham aleijado.




Filhos do Coração


Procuravam naquela casa o que, diziam os outros, já tinham: uma filha.
Um homem e uma mulher, casados entre si, com duas filhas biológicas tinham sido desafiados pelo inusitado: à porta de sua casa, dentro de uma cesta, uma menina com poucos dias de vida foi a realidade que encontraram logo depois de atenderem à campainha.
Ao contrário do susto que se lhes podia adivinhar, mas sem que deixassem ao rumo do clandestino a sorte daquele bébé, aquela família decidiu ter um filho do coração.
Desigual nos genes tal como na cor mas, em absoluto, idêntica na vontade de ser feliz, dando felicidade.
Percorridos os corredores da administração, ei-los chegados àquela casa onde esperavam ouvir dizer que ela, a "Naomi", como carinhosamente a tratavam pela sua beleza, era mais uma da família.
E assim foi.
No dia da inquirição das ultimas testemunhas, posto que todo o processo estava devidamente tramitado, concluído foi que o pedido era de proceder e a pequena "Naomi", linda, era a mais pequena das três filhas de um homem e de uma mulher que sabem amar.
O sorriso foi mais bonito porque, mais uma surpresa, naquele dia a menina perfazia dois anos.