Finalmente chegava um dia perfeito.
Desde que se lembrava de si era no meio dos seus iguais: apenas por serem diferentes, e somente por isso, todos eles tinham crescido longe de quem se sabiam saudosos e numa morada que, afinal, lhes tinham dito ser o seu lar.
Mas naquele dia ele era um ser inteiro.
Subiu as escadas daquela casa, ainda que as suas pernas fossem as rodas da velha cadeira; respondeu que sim ao ouvir o seu nome, pela voz de quem sempre soube ler cada um dos seus acenos, já que a voz decidiu alojar-se no seu coração e, como nunca antes, aos seus ouvidos, que nunca se abriram ao Mundo, chegaram todas as palavras pelo bailado de cada sinal, de todos os sinais.
Com um semblante pleno de orgulho e uma alegria, que no seu caso era de garbo, soube dançar em cada gesto que, em palavras depois ditas, respondiam a todas as interpelações e explicitavam cada uma das muitas interjeições.
Houve um momento em que o seu sorriso foi ainda mais límpido: lendo a dança dos gestos, mais uma coreografia, soube que agora podia voar sozinho. E fez-se um cavado silêncio e uma delonga inesperada.
Mas logo, logo se fez entender: curvado como que ensaiando o seu salto mortal, desapertou os atilhos dos sapatos e tirou um deles, elevou-o e mostrou como a um dos seus tinham aleijado.
